Leiria era uma cidade de homens com bom humor porque a aceitavam como ela era. Tudo estava em harmonia, assim se pensava, até na pobreza, na mão estendida à caridade, No pé descalço.
Essa harmonia nem foi perturbada pelo estrondo infernal pelos primeiros aviões a jacto - os Fiat 21 - vindos da base aérea de Monte Real, fazendo tremer o burgosinho atinado com as suas trovoadas estrepitosas.
- São aviões ajax - esclarecia o senhor Adriano, o barbeiro.
Interrompia por breves instantes o mágico manejar da tesoura e do pente no cabelo de um cliente, os olhos expectantes virados para o tecto. Após a passagem dos aviões, regressada a velha calmaria, acrescentava uma previsão crítica:
- Se estes aviões continuam a passar por aqui, as ruinas do castelo vêm por aí baixo,
O senhor Adriano tinha o seu estaminé em frente ao Banco Ultramarino, este no largo do Mercado Municipal de Santana, entre o talho do senhor Matias e a loja do Geninho Pinheiro, uma drogaria que vendia de tudo, além das drogas específicas: baldes de folha, rolos de corda e guita, seiras, escadotes, cimento, tijolos. A bem dizer, o que não se encontrava em mais lado nenhum, o Geninho tinha. A sua especialidade era o veneno: para ratos, baratas, caracóis, filoxera da vinha. E, dizia-se também à boca pequena, que vendia a mulheres que queriam despachar os maridos.
O senhor Matias, o homem do talho, era uma figura impressionante pelo seu físico avantajado, uns pezunhos enormes e um andar à pato manco pelos pés chatos. Eu, ainda puto de calções, tinha medo dele, não porque fosse agressivo ou ameaçador, mas porque a juntar ao canastro de gigantone do homem, ele envergava uma espécie de avental branco desde o pescoço até quase ao chão, machado por zonas de sangue. Temia-o também porque quando ele tinha que vir até porta, empunhava o seu facão de talhante, ao mesmo tempo afiando-lhe o gume num afiador de metal que produzia um som metálico e sinistro.