sexta-feira, 3 de abril de 2020

2. OS ÚLTIMOS LEIRIENSES

       Leiria era uma cidade de homens com bom humor porque a aceitavam como ela era. Tudo estava em harmonia, assim se pensava, até na pobreza, na mão estendida à caridade, No pé descalço.
       Essa harmonia nem foi perturbada pelo estrondo infernal pelos primeiros aviões a jacto - os Fiat 21 - vindos da base aérea de Monte Real, fazendo tremer o burgosinho atinado com as suas trovoadas estrepitosas.
      - São aviões  ajax - esclarecia o senhor Adriano, o barbeiro.
       Interrompia por breves instantes o mágico manejar da tesoura e do pente no cabelo de um cliente, os olhos expectantes virados para o  tecto. Após a passagem dos aviões, regressada a velha calmaria, acrescentava uma previsão crítica:
         - Se estes aviões continuam a passar por aqui, as ruinas do castelo vêm por aí baixo,
      O senhor Adriano tinha o seu estaminé em frente ao Banco Ultramarino, este no largo do Mercado Municipal de Santana, entre o talho do senhor Matias e a loja do Geninho Pinheiro, uma drogaria que vendia de tudo, além das drogas específicas: baldes de folha, rolos de corda e guita, seiras, escadotes, cimento, tijolos. A bem dizer, o que não se encontrava em mais lado nenhum, o Geninho tinha. A sua especialidade era o veneno: para ratos, baratas, caracóis, filoxera da vinha. E, dizia-se também à boca pequena, que vendia a mulheres que queriam despachar os maridos. 
          O senhor Matias, o homem do talho, era uma figura impressionante pelo seu físico avantajado, uns pezunhos enormes e um andar à pato manco pelos pés chatos. Eu, ainda puto de calções, tinha medo dele, não porque fosse agressivo ou ameaçador, mas porque a juntar ao canastro de gigantone do homem, ele envergava uma espécie de avental branco desde o pescoço até quase ao chão, machado por zonas de sangue. Temia-o também porque quando ele tinha que vir até porta, empunhava o seu facão de talhante, ao mesmo tempo afiando-lhe o gume num afiador de metal que produzia um som metálico e sinistro.
       

quarta-feira, 1 de abril de 2020

1. OS ÚLTIMOS LEIRIENSES

                                            OS ÚLTIMOS LEIRIENSES 

                                                         (romance às colheres)


                         
                                               A MARGEM  GAUCHE DO RIO LIZ


             A margem direita de qualquer rio - quaisquer rios - é e sempre foi a mais povoada. Os dias são mais longos, o Sol tem uma fulgência feita de muitos e diversos adjectivos. A quentura provoca uma alegria exultante, oferecendo aos povoadores o impulso para um desenvolvimento  febril nos negócios e na arte. Na vida, em suma.
     Não admira que os povos antigos tenham escolhido a margem direita para fundar as suas comunidades, fixando-se, alargando-se, desenvolvendo-se. Foi na margem direita do Tejo que Lisboa abarcou todo o país, proclamando-se, com alguma prosápia, capital de Porugal e, mais remotamente, dos Algarves. Fez-se grande, fez-insolente porque mais que um prazer era um imperativo. Contra Lisboa era - e é - ter razão. Arrumada a monarquia no coté das inutilidades, os presidentes republicanos mantiveram o olissiponense burgo como capital.
       Na margem direita do rio Douro nasceu um Porutugal comercial e vinhateiro, desenvolvido pela mão comercial de britãnicos com bom olho para o negócio dos vinhos e das vinhas. Os seus descendentes ainda hoje, após dois séculos, falam um português atravessado por um sotaque que, julgam eles, lhes empresta um carácter de aristocracia à la Buckingham Palace.
        A excepção a todas as cidades florescidas na margem direita - em Portugal são quase todas - é Leiria instalada na margem gauche de um rio com humores sazonais, perigosamente engordado pelas chuvas sazonais. Nas épocas mais invenosas trazia nas suas águas barrentas ramos de árvores, raizes, ilhotas de canas e erva, tábua, laranjas. Um afogado ficou encalhado na represa da Estação Elèctica, bem junto à ponte Hintze Ribeiro. Estava inchado e nu, de barriga para baixo, como que escondendo a vergonha da sua indecência. Num intervalo das aulas, os alunos do Lyceu Rodrigues Lobo vieram a correr para colocaram os olhos atónitos no que nunca tinham visto nem lhes fora ensinado na chateza das aulas: a morte. 
     O Liz era um rio dado a caprichos. De mau humor, talvez por ser um dos poucos que corre para norte, em épocas passadas inundou o centro da cidade, alegando ruas e o rés-do-chão das casas, matando, afogando, destruindo. Até que no ano de 1911, a edilidade lhe tirou o pio de galifão dado a caprichos, com o levantamento de paredes tão altas como muros de uma fortaleza. 
      Leiria não soçobrou a um nascimento impensável numa margem esquerda porque possuía capacidades super normais, bem longe das do vulgo.