quarta-feira, 1 de abril de 2020

1. OS ÚLTIMOS LEIRIENSES

                                            OS ÚLTIMOS LEIRIENSES 

                                                         (romance às colheres)


                         
                                               A MARGEM  GAUCHE DO RIO LIZ


             A margem direita de qualquer rio - quaisquer rios - é e sempre foi a mais povoada. Os dias são mais longos, o Sol tem uma fulgência feita de muitos e diversos adjectivos. A quentura provoca uma alegria exultante, oferecendo aos povoadores o impulso para um desenvolvimento  febril nos negócios e na arte. Na vida, em suma.
     Não admira que os povos antigos tenham escolhido a margem direita para fundar as suas comunidades, fixando-se, alargando-se, desenvolvendo-se. Foi na margem direita do Tejo que Lisboa abarcou todo o país, proclamando-se, com alguma prosápia, capital de Porugal e, mais remotamente, dos Algarves. Fez-se grande, fez-insolente porque mais que um prazer era um imperativo. Contra Lisboa era - e é - ter razão. Arrumada a monarquia no coté das inutilidades, os presidentes republicanos mantiveram o olissiponense burgo como capital.
       Na margem direita do rio Douro nasceu um Porutugal comercial e vinhateiro, desenvolvido pela mão comercial de britãnicos com bom olho para o negócio dos vinhos e das vinhas. Os seus descendentes ainda hoje, após dois séculos, falam um português atravessado por um sotaque que, julgam eles, lhes empresta um carácter de aristocracia à la Buckingham Palace.
        A excepção a todas as cidades florescidas na margem direita - em Portugal são quase todas - é Leiria instalada na margem gauche de um rio com humores sazonais, perigosamente engordado pelas chuvas sazonais. Nas épocas mais invenosas trazia nas suas águas barrentas ramos de árvores, raizes, ilhotas de canas e erva, tábua, laranjas. Um afogado ficou encalhado na represa da Estação Elèctica, bem junto à ponte Hintze Ribeiro. Estava inchado e nu, de barriga para baixo, como que escondendo a vergonha da sua indecência. Num intervalo das aulas, os alunos do Lyceu Rodrigues Lobo vieram a correr para colocaram os olhos atónitos no que nunca tinham visto nem lhes fora ensinado na chateza das aulas: a morte. 
     O Liz era um rio dado a caprichos. De mau humor, talvez por ser um dos poucos que corre para norte, em épocas passadas inundou o centro da cidade, alegando ruas e o rés-do-chão das casas, matando, afogando, destruindo. Até que no ano de 1911, a edilidade lhe tirou o pio de galifão dado a caprichos, com o levantamento de paredes tão altas como muros de uma fortaleza. 
      Leiria não soçobrou a um nascimento impensável numa margem esquerda porque possuía capacidades super normais, bem longe das do vulgo.
                                                          
      

Sem comentários:

Enviar um comentário